Seja bem-vindo

A proposta é descrever o que penso, sem o compromisso de fazer pensar como eu penso. É também um questionar de algumas situações que me cercam, me alegram, me incomodam, enfim, me descontroem e me constroem a cada dia. Pensar sem medo de fazer um auto-flagelo de idéias que devem ser maltratadas a ponto de serem expurgadas, se preciso for. Pensar e repensar no que creio e no que deixo de crer.

Se eu conseguir pensar sobre o que penso e de alguma forma multiplicar o que penso, seja para que outros pensem parecido, ou para que outros pensem exatamente o contrário do que penso, me fazendo repensar, ficarei satisfeito.

(no começo, eram reflexões sobre as aulas de Teologia no Centro Universitário Bennet)

16.10.09

O incio e o fim. Quando o racional aprende com o irracional.

"Disse eu no meu coração, quanto a condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó." Eclesiastes 3.18-20.

Nunca vi nenhum pregador, exceto o prório escritor do livro de Eclesiástes, pregar em cima desse texto. A dimensão que damos ao ser humano é sempre diferente da que damos para os animais. Hoje passei por duas experiências, uma curiosa outra dolorosa, que me fizeram pensar sobre essa relação ser humano racional versus animais irracionais.

Indo para o trabalho, vi que um cão tentava atravessar uma rua muito movimentada. Tentou várias vezes, quase experimentando a morte. Eu, que aguardava para atravessar a mesma rua, imaginava que em pouco tempo aquela cena terminaria na morte do animal. Em um dado momento, surge um outro cão, que emite alguns sons, late e empurra o seu parceiro de existência para uma outra direção. Bastava isso para que eu aprendesse alguma coisa, mas o cão foi além. Direcionando o parceiro, o cão precavido que não se arriscava atravessar a rua, sobe pela passarela existente ali e atravessa em segurança. Fiquei pensando quantas vezes repeti o ato irracional de atravessar entre os carros correndo o risco de finalizar minha vida repentinamente.

As vezes achamos que sabemos mais que os animais, mas cenas como essa nos fazem parar e pensar em quem na realidade é racional, ou usa da racionalidade.

No inicio da noite, passei outra experiência, novamente com um animal. Dessa vez, não era um desconhecido, perdido na rua, mas uma cadela que eu havia pego para criar desde o primeiro mês de vida. Agora, ja no fim da sua existência, doente, sofrendo com os incômodos que o peso da idade traz e sem que eu pudesse fazer muita coisa.

A decisão mais acertada, neste caso foi abreviar o sofrimento do animal, entregando-o aos cuidados de um profissional.

Acompanhei o carro do veterinário até que ele sumisse dos meus olhos, que já estavam completamente tomados pelas lágrimas. As lembranças vieram todas num flash estonteante. Sons, imagens, brincadeiras, sorrisos dos filhos, broncas, passeios, sustos, cores, cheiros, filhotes, preocupações, alegrias...

Era um ser que nos permitiu viver sua vida, sem exigir nada em troca. Estava por perto, mesmo que em alguns momentos insistissemos para que ficasse longe. Nunca reclamava da nossa forma de viver, pensar, agir. Não tinha luxos, não exigia conforto, não tinha vaidades.

Aprendi que quando se ama de verdade, pouco se exige em troca, e por causa disso, muito se tem.

O primeiro animal experimentou o re-inicio da vida. Nasceu de novo por causa de seu amigo.

O segundo, viveu até onde foi possível e nos deixa aquele nó na garganta, daqueles que surgem quando perdemos alguém que nos é muito amado.

A vida tem seu início... A vida tem sempre seu fim...

Saber como viver entre esses dois períodos é o grande desafio que a vida nos apresenta, dia após dia, porque assim como acontece com os filhos dos homens, assim acontece com os animais. Um dia voltaremos para o mesmo lugar: o pó da terra.

Descanse em paz Fofinha, você que já nos deu tantas alegrias.

Vivamos a vida que é sofrida, mas que vale a pena ser vivida.

12.6.09

A festa que não tive e o presente do Rei

"Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Eclesiastes 7.2"

Neste ano, por ocasião do meu aniversário, pensei em fazer uma festa. Cheguei a falar com minha filha para que ela arranjasse uma banda no desejo de fazer uma festa com música ao vivo. Por alguns motivos que não são importantes, a sonhada festa não aconteceu.

Normalmente, quando não se consegue festejar, bate uma frustração. Fazer festa, comemorar com amigos, cantar, rir, fazer pedidos, tudo isso é algo que nos causa muito bem. Numa festa de aniversário reunimos as pessoas que são mais próximas. Elas farão parte de um momento da nossa história onde, por algumas horas nos esquecemos de tudo que é negativo e só pensamos em alegria e festejos.

Nos preparamos para a festa. Verificamos todos os detalhes e cuidamos para que nada seja esquecido. Bebidas e comidas são elaboradas, enfeites são pensados, lembranças são criadas. Detalhamos tudo na expectativa de que tudo saia certo e que todos sejam e estejam alegres.

Apesar de todo o trabalho que uma festa dá, não há nada que consuma mais o nosso tempo que a lista de convidados. Incluímos e excluímos várias pessoas, várias vezes. Na minha "quase-festa" comecei, desisti, recomecei a fazer uma lista de convidados e no fim sempre tinha dúvidas de quem deveria ser chamado ou excluído.

Pessoas que estudaram comigo. Pessoas que estudaram ou estudam com meus filhos. Amigos de perto e de longe. Irmãos de sangue e pelo sangue. Colegas de trabalho. Parentes e parentes de parentes. A lista é grande. A festa seria maior ainda.

Tem gente que viria por nunca mais ter me visto e por isso, matariam a saudade. Outros viriam por sua amizade. Outros pra saber o que uma pessoa de 42 anos tem pra comemorar nesse mundo complicado.

Há os que me aceitam como sou e por isso festejariam. Esses comeriam da minha comida, beberiam da minha bebida e festejariam a minha festa.

Há os que adorariam que eu fosse como eles e que também viriam, pois seria mais uma oportunidade de tentar me mudar. Esses últimos, comeriam da minha comida, beberiam da minha bebida, mas provavelmente não festejariam a minha festa.

A festa, como disse, não existiu. Sem festa, não há presentes, mas contraditóriamente, recebi de um rei um grande presente.

O que Salomão me ensinou me fez pensar bastante. Não foi um pensamento retrospectivo, mas pensei acerca do presente e do que pode ser o futuro.

Pensei na nossa total falta de preocupação com o evento denominado MORTE. Para nossos enterros, não há planejamento. Não há bebida, nem comida. Não há lista de convidados e não enviamos convites. Mas é sem dúvida nesse evento que realmente percebemos a realidade da nossa vida: Ela tem um fim.

No fim da nossa vida, mesmo sem que haja convite, estarão diante de nosso corpo sem vida, vários tipos de pessoas. Provavelmente, nem todos serão amigos, parentes, amados.

Os que amam, sentirão a perda e sequer terão vontade de comer ou beber. Não haverá festa, não haverá canto.

Aos que me amam, entendam que a minha percepção deste momento, absorvida daquilo que o Rei Salomão falou, não chega ao coração com tristeza. Talvez chegue com preocupação pelos que ficarão, pelos que serão açoitados pela dor da saudade. Sobretudo, essa percepção chega com a certeza de que ao chegar a nossa hora, temos que estar prontos para econtrarmos com o Pai.

O ensino do Rei Salomão é um tanto duro de se aprender. Ele provavelmente teve que observar mortes após mortes até chegar nesta conclusão.

Deixo um convite. Não é para a minha próxima festa. Também não é para o meu derradeiro evento. Convido a aprender com o Rei e como o Rei. Convido a tirar suas próprias conclusões sobre a festa que a vida é.

Em Deus, que nos deu o Filho e que nos fez no filho, vencedores sobre a morte.

Ronildo Brites